Histórias do Parque

De observador da natureza a DJ de fim de tarde

Logo que entra na padaria do Parque del Sol, Neylson Gonçalves Dantas, 69 anos, chama atenção como se fosse celebridade. Sentado próximo à porta de entrada, ele ajeita a camisa polo listrada no corpo enquanto cumprimenta os vários amigos que se aproximam e expressam certa surpresa pelo sumiço das últimas semanas. “Estive doente, mas já estou bem melhor”, se apressa em explicar, com um riso tão largo que seria capaz de afastar dali qualquer sombra de enfermidade recente.

Toda essa popularidade de Neylson tem causa: foi construída no hábito diário de ocupar as calçadas do centro comercial do Parque del Sol com uma trilha sonora eclética e uma farta disposição para conversar com vizinhos das mais variadas idades. É que diariamente ele senta próximo aos estabelecimentos com um aparelho de som que faz questão de comandar com afinco. “O pessoal aqui gosta, viu? Eu coloco música brasileira, música estrangeira, de todo tipo. Coloco de clássicos a Marília Mendonça”, conta.

Ali, sentado entre a utilidade do centro comercial e a tranquilidade natural da pracinha, Neylson se sente realizado. “Meu shopping é aqui”, ele diz. E emenda que, desde que se mudou para o Parque del Sol, há dois anos, não costuma sair muito porque não sente vontade nem necessidade. “Aqui eu tenho tudo. Vou na padaria, na frutaria e até jogar conversa fora no stand da Porto Freire. No fim de semana, vou almoçar no restaurante da praça e gosto de ficar alimentando os saguis. É um paraíso isso daqui”.

Neylson e a esposa decidiram trocar a agitação do apartamento onde moravam na Praia de Iracema por um ambiente mais tranquilo no Parque del Sol. “Lá tinha muito barulho, muito movimento, então eu pensava: estou chegando em uma certa idade, preciso de um lugar mais tranquilo e legal pra morar”, conta. Quando conheceu o apartamento no quinto andar do edifício Málaga, não titubeou. “Esse é o lugar onde eu quero morar. É meu paraíso. Não tenho saudade nenhuma de beira da praia”, diz.
Apesar de já ter se mudado há dois anos, a surpresa com a natureza que rodeia o apartamento traz certa incredulidade todas as manhãs, quando Neylson abre as janelas.

“Eu olho e não acredito. Meu Deus, eu tô mesmo morando aqui?”. Encantado pelo silêncio do parque, ele gosta de ouvir a trilha sonora da chuva que bate na copa das árvores. Em dias assim, ele pega o binóculo com o qual costuma observar os animais no parque para não perder nenhum detalhe visual. Só deixa o objeto de lado para fotografar, lá de cima, o contraste do tempo cinza com o verde do parque.

“Este é o meu refúgio, por isso eu luto por esse parque. Faço questão de me dedicar a manter cada uma das árvores daqui porque adoro essa natureza. Eu brinco que agora que descobri isso daqui só saio do Parque del Sol quando chegar a hora de ir para o (cemitério) Parque da Paz. E são quatro quilômetros, viu?”, ele diz, às gargalhadas.

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