Histórias do Parque

Descobrindo o mundo nos detalhes

O discreto barulho das rodas do carrinho girando sobre a praça anunciam o início de um passeio sinestésico. Com poucos meses de vida, os cinco sentidos humanos ainda nem estão plenamente desenvolvidos, mas já são suficientes para desvendar um mundo inteiro por meio de detalhes. Guiar-se no Parque del Sol sob o olhar infantil – como fazem dezenas de mães diariamente – é aprender a valorizar micro paisagens e a experimentar sensações que provavelmente passariam despercebidas pela ótica adulta.

O menino olha em volta e tudo parece grande e borrado: as folhas presas nos seus galhos, as frestas de luz que cortam as árvores, os postes metálicos que iluminarão o espaço durante a noite. Deitado sobre o confortável forro do carrinho infantil, ele ainda não consegue ver o mundo com muita nitidez, mas escuta com sensibilidade. O barulho das rodas que giram sobre a praça, a risada da criança no parquinho e mesmo a voz da mãe que cumprimenta os vizinhos são ricos estímulos, respondidos geralmente com  um sorriso banguela que encanta até mesmo quem está ali no meio de uma caminhada.

A vontade é de tocar tudo: a textura áspera dos caules das árvores, o pelo do gato que imita uma pose faceira sobre o banco, a pele da senhora que faz uma graça para tentar roubar um sorriso. O menino estica os braços e abre e fecha as mãos várias vezes, mas só consegue alcançar o ar que traz com ele uma infinitude de cheiros.

A atenção foi desviada, porque há cheiro de pipoca, planta, terra e perfume por todo lado. Quando mais a mãe empurra o carrinho, mais a criança aguça o olfato. Como cheira o Parque del Sol, afinal? Tem cheiro de gente, de cachorro, de natureza? O menino sorri como se sentisse cheiro de vida e arregala os olhos. Nos dois lados do carrinho, passam pequenos grupos borrados de pessoas que, da posição imposta pelo carrinho infantil, ele só vê da cintura para cima.

Mas, afinal, porquê as rodas pararam de girar? É hora de uma pequena parada para que a mãe possa conversar com as vizinhas. É bem cedo da noite, e vários carrinhos infantis vão sendo estacionados no entorno dos bancos de madeira da praça. O cheiro agora é também de perfume infantil e de leite na mamadeira. A vista borrada vai escurecendo porque o paladar virou protagonista. Depois de um passeio de estímulos sensoriais, comer e dormir parece ser mesmo a melhor opção.

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